July 20, 2025, 1:38 p.m.
A Saga de Erik, o Vermelho
Traduzido por Caio Donalisio
A Saga de Erik, o Vermelho
(Eiríks saga rauða)
Capítulo 1
Olaf, chamado de Olaf, o Branco, era um rei guerreiro. Ele era filho do Rei Ingjald, filho de Helgi, filho de Olaf, filho de Gudred, filho de Halfdan Perna-Branca, rei das Uplands, na Noruega.
Ele liderou uma expedição viking ao oeste, e conquistou Dublin, na Irlanda, e Dublinshire, de onde se fez rei. Ele se casou com Aud Mente-Profunda, filha de Ketil Nariz-Chato, filho de Bjorn Buna, um homem célebre da Noruega. Seu filho foi chamado de Thorstein o Vermelho.
Olaf pereceu em batalha na Irlanda, e então Aud e Thorstein foram às Ilhas Hébridas. Lá, Thorstein casou-se com Thorid, filha de Eyvind, o homem do Leste, irmã de Helgi, o Magro; e eles tiveram muitos filhos.
Thorstein tornou-se rei guerreiro, e formou uma aliança com o Jarl Sigurd, o Grande, filho de Eystein, o Chocalho. Eles conquistaram Caithness, Sutherland, Ross, e Moray, e mais de metade da Escócia. Dessas terras Thorstein foi rei, até os escoceses tramarem contra ele, e ele pereceu lá em batalha.
Aud estava em Caithness quando ela soube da morte de Thorstein. Então ela ordenou que um navio mercante fosse secretamente construído no bosque, e quando ela estava pronta, foi até as ilhas Orkney. Lá, ela ofereceu em casamento a filha de Thorstein o Vermelho, Gro, que se tornou a mãe de Grelad, com a qual o Jarl Thorfinn Rachador-de-Crânios se casou.
Depois Aud foi para a Islândia, tendo vinte homens livres em seu navio. Aud chegou à Islândia, e passou seu primeiro inverno em Bjarnarhofn com seu irmão Bjorn. Depois ela ocupou todo o vale entre os rios Dogurdara e Skraumuhlaupsa, e viveu em Hvamm. Ela fazia orações em Krossholar, onde ordenou que cruzes fossem erguidas, uma vez que ela era batizada e profundamente devota. Vieram com ela à Islândia muitos homens honrosos, que haviam sido capturados em expedições vikings ao oeste, e eram chamados de escravos.
Um desses era chamado Vifil; ele era um homem de família nobre, e havia sido capturado no mar do oeste, e foi um escravo até que Aud o libertou. E quando Aud concedeu terras à tripulação de seu navio, Vifil perguntou por que ela não havia dado terras a ele, como havia dado aos outros. Aud respondeu que isso não faria diferença para ele, dizendo, que ele seria visto como um homem nobre onde quer que estivesse. Ela deu a ele o vale Vifilsdalr, e ele viveu lá e casou-se. Seus filhos foram Thorbjorn e Thorgeir, homens promissores, e eles cresceram com o pai.
Capítulo 2
Havia um homem chamado Thorvald, filho de Asvald, filho de Ulf, filho de Yxna-Thoris. O nome de seu filho era Erik. Pai e filho partiram de Jadar, na Noruega, para a Islândia, por causa de homicídios, e ocuparam terras em Hornstrandir, e viveram em Drangar.
Lá Thorvald morreu, e Erik então se casou com Thjodhild, filha de Jorund, filho de Atli e de Thorbjorg Peito-de-Navio, com a qual depois Thorbjorn, da família de Haukadalr, se casou; Erik se mudou do norte, e limpou terras em Haukadalr, e viveu em Eiriksstadr, perto de Vatnshorn.
Então escravos de Erik causaram um deslizamento de terra na propriedade de Valthjof, em Valthjosstadr. Eyjolf, o Merda, parente de Valthjof, matou os escravos perto das encostas Skeidsbrekkur, acima de Vatzhorn. Em troca, Erik matou Eyjolf, o Merda; ele matou também Hrafn o Duelador, em Leikskalar. Gerstein, e Odd de Jorfi, parente de Eyjolf, conduziram a acusação legal pela morte de seus parentes; e então Erik foi banido de Haukadalr.
Ele ocupou então as ilhas Brokey e Eyxney, e viveu em Tradir, em Sudrey, durante o primeiro inverno. Então ele emprestou pilares de madeira a Thorgest. Depois Erik mudou-se para Eyxney, e viveu em Eiriksstadr. Ele então pediu de volta seus pilares, mas não os recebeu. Então Erik foi e pegou seus pilares de volta em Breidabolstadr, e Thorgest foi atrás dele. Eles lutaram a uma curta distância na fazenda de Drangar, e lá pereceram dois dos filhos de Thorgest, e alguns outros homens.
Depois disso, ambos mantiveram uma grande quantidade de homens juntos consigo. Styr deu apoio a Erik, bem como Eyjolf de Sviney, Thorbjorn Vifilsson, e os filhos de Thorbrand de Alptafjordr. Mas os filhos de Thord Gellir, bem como Thorgeir, do vale Hitardalr, Aslak do vale Langadalr, e Illugi, seu filho, apoiaram Thorgest.
Erik e seus homens foram banidos na Assembleia de Thorsnes. Ele preparou um navio no riacho Erikisvagr e Eyjolf escondeu Erik em Dimunarvagr enquanto Thorgest e seus homens o procuravam nas ilhas. Erik disse a seus homens que ele queria procurar a terra que Gunnbjorn, filho de Ulf o Corvo, viu quando ele foi arrastado para oeste no mar, e descobriu o rochedo Gunnbjarnasker. Ele prometeu que ele retornaria para visitar seus amigos se ele encontrasse aquela terra. Thorbjorn, e Eyjolf, e Styr acompanharam Erik para além das ilhas. Eles se separaram com a maior das amizades; Erik disse que os ajudaria de volta tanto quanto conseguisse, se eles viessem a precisar.
Então ele velejou da geleira de Snaefellsjokull rumo ao mar, e chegou à geleira chamada Blaserkr; de lá ele viajou ao sul para ver se havia alguma terra habitada naquela direção.
Ele passou o primeiro inverno na ilha Eiriksey, perto do meio do Assentamento-Ocidental. Na primavera seguinte ele seguiu ao fiorde Eiriksfjordr, e estabeleceu sua moradia lá. Durante o verão, ele seguiu às terras inabitadas do oeste, e ficou lá por um longo tempo, dando nomes aos lugares por toda parte. O segundo inverno ele passou nas ilhas Eiriksholmar, perto do cabo Hvarfsgnupr; e no terceiro verão ele velejou ao norte para Snaefell, e para dentro do fiorde Hrafnsjordr; supondo que havia chegado ao fim do fiorde Eiriksfjord, ele retornou, e passou o terceiro inverno na ilha Eiriksey, frente à entrada do fiorde Eiriksfjord.
Então, depois, durante o verão, ele seguiu para a Islândia, e chegou ao fiorde Breidafjordr. Este inverno ele esteve com Ingolf, em Holmlatr. Na primavera, Thorgest e ele lutaram, e Erik foi derrotado. Depois disso eles se reconciliaram. No verão Erik foi morar na terra que ele havia descoberto, a qual ele chamou de Groenlândia [terra verde], “Porque” disse ele “as pessoas desejarão ir lá muito mais se a terra tiver um bom nome”.
Capítulo 3
Thorgeir Vifilsson casou-se, e tomou como esposa Arnora, filha de Einar, de Laugarbrekka, filho de Sigmund, filho de Ketil-Thistil, que havia se estabelecido no fiorde Thistilsfjordr.
A segunda filha de Einar era chamada Hallveig. Thorbjorn Vifilsson tomou-a como esposa, e recebeu com ela a terra de Laugarbrekka, em Hellisvollr. Thorbjorn se mudou de lá, e ele tornou-se um grande homem. Ele era o sacerdote do templo, e tinha uma propriedade magnífica. A filha de Thorbjorn era Gudrid, a mais bela das mulheres, e de nobreza inigualável em toda sua conduta.
Havia um homem chamado Orm, que vivia em Arnarstapi, e ele tinha uma mulher chamada Halldis. Ele era um próspero fazendeiro e um grande amigo de Thorbjorn, e Gudrid viveu em sua casa como filha adotiva por um longo tempo.
Havia um homem chamado Thorgeir, que vivia em Thorgeisfjall. Ele possuía muito gado, e havia sido libertado da escravidão. Ele tinha um filho, cujo nome era Einar, um homem belo, bem educado, e um grande dândi. Einar, nessa época, era um mercador viajante, velejando de terra a terra com grande sucesso; e ele sempre passava seu inverno ou na Islândia ou na Noruega.
Agora, depois disso, há que se contar como em um outono, quando Einar estava na Islândia, ele seguiu com suas mercadorias por Snaefellsness, com a intenção vendê-las; ele chegou a Arnarstapi; Orm o convidou para ficar lá, e Einar aceitou seu convite, porque havia amizade entre ele e os homens de Orm, e suas mercadorias foram colocadas em um depósito. Lá, ele abriu suas mercadorias, mostrou-as a Orm e aos homens da casa, e ofereceu a Orm que pegasse o que quisesse. Orm aceitou a oferta, e anunciou que Einar era um nobre e bom viajante, agraciado pelo destino. Enquanto eles estavam ocupados com as mercadorias, uma mulher passou em frente à porta do depósito.
Einar perguntou a Orm sobre quem seria aquela bela mulher passando em frente à porta “Eu não a vi aqui antes” disse ele
“Essa é Gudrid, minha filha adotiva” disse Orm, “Filha de Thorbjorn, o fazendeiro de Laugarbrekka”.
“Ela deve ser um bom partido” disse Einar; “certamente não são poucos os pretendentes que se declararam a ela, são?”.
Orm respondeu, “Propostas certamente foram feitas, amigo, mas este tesouro não é conquistado facilmente; acredita-se que ela e seu pai serão muito exigentes na escolha de seu esposo”.
“Bem, apesar disso” disse Einar; “ela é a mulher com quem eu pretendo me casar, e eu espero tu digas isso ao pai dela em meu favor, e faças tudo o que for possível para obter sucesso, e eu te recompensarei com a minha absoluta amizade. Thorbjorn deve considerar o nosso vínculo mutuamente vantajoso, já que ele é dos homens mais honráveis e possui uma boa casa, mas suas riquezas, dizem, estão em declínio; e nem eu nem meu pai temos poucas terras ou propriedades; Thorbjorn será bastante favorecido, se este casamento se concretizar”.
Então respondeu Orm “Certamente eu me considero teu amigo, no entanto não estou disposto a fazer o que pedes, uma vez que Thorbjorn é um homem orgulhoso e extremamente ambicioso”
Einar respondeu dizendo que desejava apenas que suas intenções fossem anunciadas. Orm então consentiu, e Einar viajou a sul de novo, até chegar a sua casa.
Um tempo depois, Thorbjorn fez um banquete de outono, como era costume, já que era um homem de grande prestígio. Lá estavam presentes Orm, de Arnarstapi, e muitos outros amigos de Thorbjorn.
Orm conversou com Thorbjorn, e contou-lhe que Einar o havia visitado recentemente, vindo de Thorgeirsfjall, e que havia se tornando um homem promissor. Ele então anunciou a intenção de Einar e disse que uma aliança entre as famílias seria muito conveniente para seus interesses “Deve originar-se deste casamento” ele disse “grande auxílio para as tuas propriedades”.
Mas Thorbjorn respondeu “Eu não esperava ouvir uma proposta destas de ti, que eu deveria casar a minha filha com um filho de um escravo; e que te parece que minhas riquezas diminuem; bem, então minha filha não deve mais permanecer contigo, já que tu a consideras digna de um casamento tão ruim”.
Então Orm retornou a casa, e cada um dos outros convidados às suas próprias casas, e Gudrid permaneceu com o seu pai, e ficou em casa naquele inverno.
Então, na primavera, Thorbjorn fez uma festa aos seus amigos, e um grande banquete foi preparado. Vieram muitos convidados, e o banquete foi dos melhores. Então, no banquete, Thorbjorn chamou a atenção de todos e assim falou: “Aqui eu vivi por um longo tempo. Eu vivenciei a benevolência dos homens e suas amizades, e eu considero que nossas relações tenham sido mutuamente agradáveis. Mas neste momento minha condição financeira me preocupa, até agora minha situação foi sempre respeitável. Eu prefiro, portanto, abandonar minhas propriedades do que perder a minha honra, e prefiro abandonar a minha casa a trazer desgraça à minha família; portanto eu pretendo aceitar a promessa de Erik, o Vermelho, meu amigo, feita quando nos separamos em Breidafjordr. Eu pretendo partir para a Groenlândia neste verão, se tudo ocorrer como eu desejo”.
Os convidados se espantaram com os planos de Thorbjorn, uma vez que ele era muito bem quisto por seus amigos. E lhes pareceu que ele estava tão convencido desta ideia que seria inútil tentar fazê-lo mudar de ideia. Thorbjorn distribuiu presentes aos convidados, e então o banquete chegou ao fim, e eles partiram para suas casas.
Thorbjorn vendeu suas terras, e comprou um navio que estava parado na entrada do porto Hraunhofn. Trinta homens acompanharam-no na expedição. Ali estava Orm, de Arnarstapi, e sua mulher, e aqueles amigos de Thorbjorn que não desejavam se separar dele.
Então eles zarparam, e velejaram com ventos favoráveis. Mas quando eles chegaram ao mar aberto, os ventos favoráveis cessaram, e sopraram fortes ventanias, e fizeram uma lenta viagem ao longo do verão. Além disso, uma febre assolou a expedição, e Orn morreu, e Halldis, sua mulher, e metade do grupo. Então o mar ficou mais agitado, e eles passaram por muitas dificuldades e situações penosas, e só chegaram a Herjolfsness, na Groenlândia, no começo do inverno.
Lá morava em Herjolfsness um homem chamado Thorkell. Ele era um homem competente e um valoroso fazendeiro. Ele recebeu Thorbjorn e toda a companhia de seu navio durante o inverno, e o acolheu de maneira nobre e correta. Isso agradou a Thorbjorn e seus companheiros de viagem.
Capítulo 4
Naquela época, havia uma grande fome na Groenlândia; aqueles que haviam saído para pescar pescaram pouco, e alguns não retornaram. Havia no assentamento uma mulher chamada Thorbjorg. Ela era uma vidente, e era chamada de Pequena Sibila. Ela tivera nove irmãs, que haviam sido todas videntes, mas apenas ela estava viva. Era hábito de Thorbjorg durante o inverno ir a festas, e as pessoas a convidavam para as suas casas, especialmente aqueles que tinham alguma curiosidade sobre seus destinos, ou sobre a próxima estação; e uma vez que Thorkel era o chefe das redondezas, ele achava que ele era encarregado de saber quando a fome que os assolava cessaria. Ele convidou, portanto, a vidente à sua casa, e foram feitos preparos cuidadosos para a sua recepção, como era costume sempre que se recebia uma mulher do tipo. Um assento alto foi preparado para ela, no qual uma almofada de penas foi colocada.
Quando ela veio de noite, acompanhada pelo homem mandado para encontrá-la, ela estava vestida com uma capa azul, apertada por uma cinta, incrustada com gemas até a bainha da saia. No pescoço ela tinha contas vidro. Em sua cabeça ela tinha um capuz negro de pele de carneiro, forrado com arminho. Em sua mão portava um cajado, ornamentado com latão, e incrustado com gemas na ponta. Ao redor da cintura, ela vestia uma cinta de tecido macio, onde havia uma grande sacola de pele, na qual ela mantinha os talismãs necessários para a sua feitiçaria. Ela vestia calçados de pele de bezerro em seus pés, com tiras longas e robustas, e grandes pontas de latão. Em suas mãos ela tinha luvas de pele de arminho, e elas eram brancas e felpudas por dentro.
Quando ela entrou, todos os homens se viram no dever de lhe oferecer as saudações apropriadas, e estas ela recebeu de bom grado, uma vez que os homens lhe foram agradáveis. O fazendeiro Thorkell pegou a sábia pela mão e a conduziu ao assento preparado para ela. Ele pediu que ela tratasse de seu rebanho, sua casa e suas propriedades.
Ela permaneceu completamente em silêncio.
Ao longo da noite as mesas foram montadas; e agora se deve contar qual comida foi servida à vidente. Havia sido preparado para ela mingau de leite de cabrita, e os corações de todas as criaturas que podiam ser encontradas lá foram cozinhados para ela. Ela tinha uma colher de latão e uma faca com empunhadura de dente de morsa, adornada com dois anéis de latão, e a ponta estava quebrada.
Quando as mesas foram removidas, o fazendeiro Thorkell se aproximou de Thorbjorg e lhe perguntou se havia apreciado seu lar, a aparência de seus homens e quão logo ela responderia àquilo que ele havia perguntado, e que os homens estavam ansiosos para saber. Ela respondeu que não daria resposta antes do amanhecer, depois que tivesse dormido lá naquela noite.
E quando já havia passado bastante do dia seguinte, as preparações para realizar seus encantamentos foram feitas. Ela pediu que a trouxessem as mulheres que soubessem os encantamentos necessários, conhecidas como conjuradoras, mas não havia nenhuma. Então procurou-se pela fazenda por alguma mulher que conhecesse o encantamento.
Então disse Gudrid “Não sou conhecedora da magia nem sou vidente, no entanto minha mãe adotiva, Halldis, me ensinou na Islândia certa canção-magia”.
“Então Você é mais sábia do que eu supunha!” respondeu Thorbjorg; mas Gudrid replicou, “Esse encantamento e a cerimônia são de tal tipo que eu prefiro não oferecer ajuda, porque eu sou uma mulher cristã”.
Thorbjorg respondeu “Você poderia oferecer ajuda aos homens desta companhia, e mesmo assim não se tornaria uma mulher pior do que foi antes; mas a Thorkell eu peço que me provenha aqui com as coisas que são necessárias”.
Thorkell então rogou a Gudrid que consentisse, e ela cedeu aos seus pedidos. As mulheres formaram um círculo em torno da plataforma, e Thorbjorg subiu na plataforma e no assento preparados para os seus encantamentos. Então cantou Gudrid a canção de maneira tão bela e excelente, que ninguém lá jamais havia ouvido a melodia com uma voz tão bonita.
A vidente agradeceu-a pela canção. “Muitos espíritos” disse ela “foram atraídos pelo canto, e ficaram contentes em ouvir a canção, eles que até então virariam as costas para nós e não nos concederiam esta honra. E agora muitas coisas que antes se escondiam de mim e dos outros agora estão claras. E eu posso dizer o seguinte, que a escassez não perdurará, o tempo será melhor conforme chega a primavera. A epidemia de febre que há tanto tempo nos assola desaparecerá mais rápido do que poderíamos esperar. E você, Gudrid, a recompensarei imediatamente, pela ajuda que bondosamente nos ofereceu, porque o seu destino agora é claro para mim. Você achará um par aqui na Groenlândia, dos mais honráveis, no entanto, não será um duradouro para você, porque o seu destino segue para a Islândia; e lá, surgirá de você uma linhagem de descendentes grandiosos e numerosos , e sobre a árvore de sua família haverá de brilhar uma luz resplandecente. E agora adeus, e saúde a ti, minha filha”.
Depois os homens foram à vidente, e cada um perguntou a ela o que era para si de maior curiosidade. Ela respondeu em abundância, e o que ela disse se provou verdade. Depois disso veio um de uma propriedade vizinha procurá-la, e ela então foi para lá. Thorbjorn foi então chamado, porque ele não desejava ficar em casa enquanto aquele culto pagão era realizado.
O tempo logo melhorou assim que veio a primavera, conforme Thorbjorg havia previsto; Thorbjorn aprontou o seu navio e seguiu até chegar em Brattahlid. Erik recebeu-o com a maior das cordialidades, dizendo que ele havia feito bem em ir até lá. Thorbjorn e sua família ficaram com ele durante o inverno. E na primavera seguinte Erik deu a Thorbjorn terra em Stokknes, onde ergueu-se uma boa fazenda, e ele viveu ali daí em diante.
Capítulo 5
Erik tinha uma esposa chamada Thjodhild, e dois filhos; um era chamado Thorstein, e o outro Leif. Estes filhos de Erik eram ambos homens promissores. Thorstein nesta época vivia em casa com o pai; e não havia ninguém na Groenlândia que fosse tão estimado quanto ele. Leif havia navegado à Noruega, e lá ficou com o rei Olaf Tryggvason.
Quando Leif zarpou da Groenlândia no verão, ele e seus homens foram desviados de rota até as ilhas Sudreyjar. De lá, demoraram até conseguirem um vento favorável, e ali ficaram por um longo período no verão, chegando na Noruega no tempo de colheita. Leif se enamorou por certa mulher chamada Thorgunna. Ela era uma mulher de nobre família e Leif percebeu que ela era possuidora de rara inteligência. Quando Leif se preparava para partir, Thorgunna perguntou se podia acompanhá-lo. Leif perguntou se ela tinha a aprovação de sua família. Ela respondeu que não se importava com isso. Leif disse então que não lhe parecia sábio capturar uma mulher de alta família em um país estrangeiro, ‘e somos tão poucos.’ ‘Não é claro que você considere esta a melhor decisão,’ disse Thorgunna. ‘eu devo fazê-la, no entanto’ disse Leif. ‘Pois então eu te digo’ disse Thorgunna ‘que já não sou uma mulher sozinha, pois estou grávida, e do seu filho. Eu prevejo que darei a luz a um filho homem. Talvez você não se importe, mas eu cuidarei do garoto, e então o enviarei a você na Groenlândia, quando ele já puder estar entre os homens. Além disso, eu pretendo ir eu mesma à Groenlândia antes do fim.’ Leif deu-lhe um anel de ouro, um casaco de lã da Groenlândia, e um cinto de marfim de morsa.
Leif e seus homens navegaram das ilhas Hébridas até a Noruega no outono. Ele foi bem recebido pelo rei Olaf Tryggvason e entrou para sua guarda pessoal, e o rei o tinha em alta estima, e lhe pareceu que Leif era um homem de grandes feitos. Certa vez o rei conversava com Leif e lhe perguntou “Você pretende ir à Groenlândia neste verão?”.
Leif respondeu, “Eu devo fazê-lo, se for de sua vontade.” O rei respondeu, “Eu assim desejo; você deve cumprir a missão de pregar o cristianismo na Groenlândia.”. Leif respondeu que estava disposto a fazê-lo, mas que seria difícil ter sucesso com a sua mensagem na Groenlândia. O rei respondeu que não conhecia homem mais capaz para a missão “e você levará” disse ele “boa sorte consigo” “Só conseguirei” disse Leif “por levar a sua sorte comigo”.
Leif zarpou logo que seu barco ficou pronto. Ele foi arrastado pelo mar por um longo tempo, e chegou em terras que até então não conhecia. Lá havia campos de trigo selvagem e videiras crescidas. Também havia lá árvores que foram chamadas de bordos, e de todos esses eles pegaram uma amostra. Alguns dos troncos eram tão grandes que foram usados em construções. Leif achou alguns homens naufragados e os trouxe de volta para casa, e deu-lhes sustento durante o inverno. Assim ele mostrou sua grande graça e generosidade quando ele trouxe o cristianismo à terra e salvou os homens náufragos. Ele foi chamado de Leif, o Sortudo.
Leif alcançou terra em Eiriksfjordr e seguiu rumo à sua casa, em Brattahlid. Ele foi bem recebido por todos. Logo em seguida ele pregou o cristianismo e a verdade católica pela terra, espalhando a mensagem do rei Olaf Tryggvason; e declarou quanta glória e excelência acompanhavam aquela fé. Erik demorou para abandonar suas velhas crenças, mas sua mulher, Thjodhild, se converteu prontamente, e fez com que uma igreja fosse construída não muito próximo da fazenda. A construção foi chamada de Igreja de Thjodhild; e nesse lugar ela fazia as suas orações, bem como os outros que haviam aceitado Cristo, e havia muitos. Depois de ter se convertido à nova fé, Thjodhild não mais mantinha contato com Erik, e isso o deixou muito contrariado.
Depois disso, muito se falou sobre ir à terra que Leif havia descoberto. Thorstein, filho de Erik, era um dos que mais queriam ir, um homem digno, sábio muito bem quisto. Erik também foi chamado para ir, pois os homens achavam que sua sorte e previdência seriam de grande auxílio. Ele foi contra isso por um longo tempo, mas não disse não quando seus amigos insistiram para que fosse. Eles aprontaram o barco que Thorbjorn havia trazido, e vinte homens foram para a expedição. Eles levaram poucas provisões, principalmente armas e comida. Na manhã em que Erik saiu de casa, ele levou consigo um pequeno baú contendo ouro e prata; ele escondeu o seu tesouro, e então prosseguiu.
Ele havia prosseguido pouco, quando ele caiu do cavalo e quebrou a costela e machucou o ombro, e gritou “Ai, ai!”. Por causa desse acidente, ele mandou dizer a sua esposa que ela deveria pegar o tesouro que ele havia escondido, acreditando que sua má sorte fora uma punição por ter escondido o dinheiro. Depois eles zarparam contentes de Eriksfjordr, pois o plano parecia promissor. Eles ficaram em alto mar por um longo tempo, e não seguiram a rota que esperavam. Eles avistaram a Islândia, e também encontraram pássaros da costa da Irlanda. O navio era arrastado pelo alto mar. No outono, eles viraram para trás, desgastados e exaustos, e chegaram a Eiriksfjordr no começo do inverno.
Então disse Erik “Nós estávamos mais entusiasmados no verão, quando nós saímos do fiorde, do que nós estamos agora, no entanto ainda vivemos, e ainda há muito por que ser grato.” Thorstein respondeu “É dever do chefe agora cuidar dos preparativos para aqueles homens sem abrigo, e achar-lhes comida.” Erik respondeu “É sempre verdade o ditado ‘Não se sabe até que se tenha a resposta’. Vou então tomar o seu conselho.” Todos aqueles sem abrigo acompanharam pai e filho. Eles então desembarcaram e foram para a casa em Brattahlid, onde permaneceram durante o inverno.
Capítulo 6
Agora, depois disso, se deve contar como Thorstein, filho de Erik, começou a cortejar Gudrid, filha de Thorbjorn. Uma resposta favorável foi dada às suas declarações, tanto pela própria moça quanto seu pai. O casamento foi arranjado, tal que Thorstein se casou com sua noiva, e o banquete nupcial foi feito em Brattahlid no outono. O banquete correu bem e teve muitos convidados. Thorstein possuía uma casa em Vestribygd, na propriedade conhecida como Lysufjordr.
Um homem chamado Thorstein possuía a outra metade da propriedade. Sua mulher era chamada Sigrid. Thorstein foi, durante o outono, a Lysufjordr, encontrar seu xará e Gudrid. Sua vinda foi bem recebida. Eles ficaram lá durante o inverno. Quando pouco do inverno havia passado, um surto de febre irrompeu na sua fazenda. O administrador do trabalho era chamado Garth. Ele era um homem impopular. Ele teve a febre primeiro e morreu. Então Thorstein, filho de Erik, ficou doente, e também Sigrid, a esposa de seu xará Thorstein. Uma noite Sigrid saiu de casa e descansou um pouco em frente à porta externa; e Gudrid a acompanhou; e elas olharam para trás em direção à porta externa, e Sigrid gritou.
Gudrid disse “Nós viemos por descuido, você não pode ficar no frio, voltemos o quanto antes para casa.” “Não é seguro, do jeito que as coisas estão” respondeu Sigrid. “Há uma multidão de pessoas mortas em frente à porta; Thorstein, teu marido, e eu, eu reconheço entre eles, e é um grande terror ver isso” e logo depois disso, ela disse “Vamos agora, Gudrid; eu não mais vejo a multidão”.
Thorstein, filho de Erik, também havia desaparecido de sua visão; ele parecia ter um chicote em sua mão, e desejava destruir a tropa fantasma. Então elas entraram, e antes da manhã ela estava morta, e um caixão foi preparado para o corpo. Então, no mesmo dia, os homens quiseram ir pescar, e Thorstein os levou aos pontos de desembarque, e cedo pela manhã ele foi ver o que eles havia pescado.
Então, Thorstein, filho de Erik, pediu que avisassem seu xará que queria vê-lo, dizendo que os assuntos de casa não estavam resolvidos; que a sua esposa tentava se levantar e vestir as roupas ao seu lado. E quando ele chegou, ela havia se erguido à beira da cama. Então ele pegou-a pelas mãos e cravou o machado no seu peito. Thorstein, filho de Erik, morreu próximo ao anoitecer. Thorstein, o fazendeiro, pediu a Gudrid que deitasse e dormisse, dizendo que vigiaria o corpo durante a noite. Então ela o fez, e logo depois do anoitecer, Thorstein, filho de Erik, sentou-se e falou, dizendo que desejava falar com Gudrid.
“É a vontade de Deus” ele disse, “que me seja dado esta ocasião para o pleno desfecho do meu destino”. Thorstein, o fazendeiro, foi até Gudrid e a acordou; ele pediu que ela fizesse o sinal da cruz e pedisse ajuda a Deus, e contou-lhe que Thorstein, filho de Erik, havia falado com ele: “e ele deseja” ele disse “encontrá-la. Você deve decidir o que fazer, pois eu não posso aconselhá-la neste assunto”.
Ela respondeu “Este deve ser um daqueles acontecimentos que vão ficar gravados na memória, este estranho evento; e eu tenho confiança que Deus cuidará de mim; sob a graça de Deus, eu irei vê-lo e descobrirei o que ele dirá, não devo escapar se algum mal estiver destinado a me afligir. O que eu menos quero é que ele fique andando por aí. Eu acredito que seja um assunto importante”.
Então Gudrid foi ver Thorstein, e lhe pareceu que ele derramava lágrimas. Ele falou em seu ouvido, em voz baixa, algumas palavras tal que apenas ela conseguisse ouvi-las; mas isso ele disse para que todos ouvissem: “Aqueles homens que se mantiverem juntos à fé verdadeira serão abençoados e toda a salvação e misericórdia os acompanharão; e ainda assim muitos a desprezavam”.
“Não é bom costume” disse ele “este que prevaleceu na Groenlândia desde que o Cristianismo veio, de enterrar homens em solos profanos com poucos ritos sobre eles. Eu desejo para mim, e para todos aqueles que morreram, ser enterrado na igreja; exceto Garth, eu desejo que ele seja queimado em uma pira, o quanto antes, pois foi ele a causa de todas os espíritos que estiveram entre nós durante o inverno.’ Ele também falou com Gudrid sobre ela própria, dizendo que seu destino seria grandioso, e pediu que ela não se casasse com homens groenlandeses; ele também pediu que ela desse a propriedade deles à Igreja e aos pobres, e então ele morreu pela segunda vez.
Era costume na Groenlândia, desde que veio o cristianismo, enterrar as pessoas em solos profanos nas fazendas onde elas haviam morrido. Uma estaca era erguida sobre o solo, tocando o peito do morto, e quando os padres vieram ao local, a estaca foi retirada, água benta foi derramada e foi realizado um rito funerário, embora bem depois do enterro.
Os corpos foram transportados para a igreja em Eiriksfjordr, e uma cerimônia foi feita pelos padres.
Depois disso Thorbjorn morreu. Toda a propriedade então foi para Gudrid. Erik a recebeu em sua casa e cuidou bem de suas provisões.
Capítulo 7
Havia um homem chamado Thorfinn Karlsefni, filho de Thord Cabeça-de-Cavalo, que vivia no norte da Islândia, em Reynines, no fiorde Skagafjordr, como é hoje conhecido. Karlsefni era um homem de boa família, e muito rico. O nome de sua mãe era Thorun. Ele realizava expedições de comércio e tinha fama de bom mercador.
Num verão Karlsefni preparou seu navio com a intenção de ir à Groenlândia. Snorri, filho de Thorbrand, do fiorde Alptafjordr, decidiu viajar com ele, e havia trinta homens a bordo.
Havia um homem chamado Bjarni, filho de Grimolf, um homem do fiorde Breidafjord; outro chamado Thorhall, filho de Gamli, um homem do leste da Islândia. Eles preparam seus navios no mesmo verão que Karlsefni, também com a intenção de ir à Groenlândia. Eles tinham no navio quarenta homens.
Os dois navios zarparam assim que ficaram prontos. Não se sabe quanto tempo levou a viagem. Mas, depois disso, há que se contar que ambos os navios chegaram em Eiriksfjordr no outono.
Erik cavalgou até os navios com outros homens locais, e fez-se comércio entre eles. Os capitães ofereceram a Gudrid o que quer que ela quisesse, e Erik demonstrou grande generosidade em retribuição, tanto que ele convidou ambas as tripulações a passarem o inverno em sua casa em Brattahlid. Os mercadores aceitaram o convite, e foram à casa de Erik. Depois suas mercadorias foram levadas para Brattahlid, onde não faltava um grande depósito onde guardar os bens. Os mercadores ficaram bastante contentes de passar o inverno com Erik.
Agora quando o Yule estava próximo, Erik começou a ficar mais sombrio do que ele costumava.
Logo Karlsefni falou com ele e lhe disse “Há algo que o aflige, Erik? Parece-me que tu estás mais quieto e menos alegre do que estiveste até então; tu nos ajudaste com muita generosidade, e nós devemos retribuir tanto quanto nos for possível. Agora diz o que causa tua melancolia”.
Erik respondeu, “Vós recebestes minha hospitalidade com muita graça, como homens dignos. Não me agrada que vossa estadia aqui vos cause sofrimento; é que me parecerá uma má coisa se for espalhado que vós nunca passastes um Yule pior do que este, prestes a começar, em que Eirik o Vermelho vos acolheu em Brattahlid, na Groenlândia”.
Karlsefni respondeu, “Não há de haver razão para isso; nós temos em nossos navios malte, farinha e cereais, e tu tens o direito de pegar aquilo que desejares, e de preparar o banquete tão grandioso quanto a ti parecer melhor”.
E Erik aceitou a oferta. Então foram feitos os preparativos para o banquete de Yule, e tão magnífico foi que os homens acharam que eles raramente haviam visto tão esplendorosa festa.
E após o Yule, Karlsefni falou com Erik sobre um casamento com Gudrid, cuja decisão ele achava que dependia de Erik, e a dama lhe pareceu muito bela e inteligente. Erik responde, e diz que era muito favorável à proposta e disse, além disso, que ela merecia um bom casamento. “Também é provável”, ele disse, “que ela estará assim seguindo o seu destino”; e, além do mais, ouvira falar muito bem dele.
A proposta foi então feita a ela, e ela permitiu o casamento que Erik desejava promover. No entanto, não há que se alongar muito sobre como o casamento ocorreu; o Yule foi prolongado e celebrou-se uma festa de núpcias. Houve muita alegria em Brattahlid durante o inverno. Jogaram-se muitos jogos e contaram-se muitas histórias, e muitas coisas foram feitas para contribuir com o aconchego do lar.
Capítulo 8
Nesse período, muito se falava em Brattahlid sobre fazer preparativos para ir à Vinlândia, pois, dizia-se, que lá eles achariam boas terras. Por fim, chegou-se à decisão que Karlsefni e Snorri preparassem seus barcos, com a intenção de procurar a Vinlândia no verão. Bjarni e Thorhall aventuraram-se na mesma expedição, com o barco os homens que os haviam acompanhado.
Havia um homem chamado Thorvard; ele era casado com Freydis, filha bastarda de Erik o Vermelho; ele também zarpou com os outros, assim como Thorvald, filho de Erik. Havia um homem chamado Thorvald; ele era genro de Erik, o Vermelho. Thorhall era chamado de ‘o Caçador’; ele tinha sido por muito tempo companheiro de Erik em viagens de caça e pesca durante os verões, e como seu ajudante durante o inverno. Thorhall era um homem grande, de cabelo escuro e gigantesco; ele já estava em idade bastante avançada, era arrogante, melancólico, sempre quieto, dissimulado, de boca suja e sempre inclinado para o pior. Ele havia se mantido longe da fé verdadeira quando esta chegou à Groenlândia. Ele era um homem de poucos amigos, contudo Erik mantinha conversas com ele havia muito tempo. Ele foi ao barco com Thorvald, pois ele tinha bastante conhecimento sobre os lugares desabitados. Eles tinham o barco em que Thorbjorn havia viajado à Groenlândia, e eles partiram com Karlsefni e os outros; e a maioria dos homens a bordo eram groenlandeses.Havia cento e sessenta homens nos barcos.
Eles velejaram para o mar; então para Vestribygd e às ilhas Bjarneyjar. Daí eles velejaram para longe de Bjarneyjar, com ventos vindos do norte. Eles ficaram ao mar por dois dias. Então eles chegaram em terra, remaram ao longo dela, e a exploraram, e lá acharam grandes placas de pedra, tantas e tão grandes que dois homens poderiam deitar nelas tocando os calcanhares. Raposas polares havia lá em abundância. A essa terra deram o nome de Helluland, Terra de Pedras.
Então eles navegaram com ventos do norte por dois dias. E eles encontraram terra, e ali uma grande floresta e muitos animais. Uma ilha ficava a sudeste daquela terra, e lá acharam ursos, e chamaram a ilha de Bjarney (Ilha do Urso); mas a terra onde havia a floresta eles chamaram de Markland (Terra da Floresta). Então, quando dois dias haviam passado, eles viram terra e foram até ela. Havia uma cabo onde eles chegaram. Eles velejaram ao longo da costa, deixando-a a estibordo. Havia uma costa sem enseadas, com longas praias de areia. Eles foram de bote até a terra e a acharam a quilha de um barco, e chamaram o lugar de Kjalarnes. Eles também deram nome à praia, chamando-a de Furdustrandir, porque demoraram muito tempo para velejar ao longo dela. Então a terra ficou rasgada por baías, e eles dirigiram seus barcos às baías.
Antes disso, quando Leif estava com o rei Olaf Tryggvason, e o rei havia pedido que ele pregasse o cristianismo na Groenlândia, ele também deu a ele dois escoceses, um homem chamado Haki, e uma mulher chamada Hӕkja. O rei pediu que Leif utilizasse essas pessoas se ele precisasse de agilidade, pois eram mais velozes que animais selvagens. Erik e Leif fizeram com que essas pessoas fossem com Karlsefni. Então, quando eles velejaram pela praia de Furdustrandir, eles puseram os escoceses em terra e pediram que corressem para as regiões ao sul, procurassem por boas terras, e voltassem depois de três dias. Eles estavam vestidos com uma roupa que chamavam de ‘kiafal’. Era feita com um capuz no topo, aberto dos lados, sem mangas, e era presa entre as pernas. Um botão e um laço mantinham-na presa; e não vestiam mais nada. Então eles lançaram as âncoras e ficaram lá esperando por eles. E quando se passaram três dias os escoceses voltaram da terra e um deles tinha em suas mãos um cacho de uva, e o outro tinha uma haste de trigo selvagem.
Eles contaram a Karlsefni que eles achavam ter encontrado boas terras. Então eles os acolheram a bordo e prosseguiram em sua jornada até onde a costa era cortada por um fiorde. Eles dirigiram os barcos até o fiorde. Havia uma ilha em frente ao fiorde, e havia fortes correntezas ao redor da ilha, a qual chamaram de Straumsey. Havia tantos pássaros lá que mal se podia caminhar em meios aos ovos. Eles seguiram o curso pelo fiorde, o qual chamaram de Straumsfjordr, e carregaram suas posses do barco para a costa, e ali eles se prepararam para ficar. Eles tinham consigo todo tipo de gado, e procuraram os produtos da terra por lá. Havia montanhas, e o lugar era belo de se observar.
Eles não trataram de mais nada além de explorar a terra, e eles acharam grandes pastagens. Eles permaneceram lá durante o inverno, que foi bem rigoroso, sem fazer provisões, e eles ficaram com pouca comida, e não conseguiram pescar. Então eles foram até a ilha, esperando que lá se conseguisse algo para pescar ou de algo encalhado na costa. No entanto, nesse local havia pouco o que se comer, mas seu gado encontrou bom sustento. Depois disso eles rezaram a Deus, rogando que Ele enviasse-lhes alguma carne, mas suas preces não foram atendidas tão logo quanto desejavam. Thorhall sumiu de vista, e eles foram à sua procura, e procuraram por três dias seguidos.
No quarto dia Karlsefni e Bjarni encontraram Thorhall no alto de uma colina. Ele estava deitado, com a cara virada para o céu, com olhos e boca e narinas escancarados, se arranhando e se beliscando, e murmurando algo. Eles perguntaram por que ele havia ido até lá. Ele respondeu que não era da conta deles; pediu que eles não se espantassem; e sobre si próprio, ele havia vivido por tanto tempo, eles não deviam se preocupar com ele. Eles imploraram que ele fosse para casa junto com eles, e ele assim fez. Um pouco depois uma baleia encalhou na praia, e os homens se amontoaram ao redor dela, e a cortaram, mesmo que não soubessem que baleia era aquela. Até Karlsefni não a reconheceu, embora tivesse grande conhecimento sobre baleias. Ela foi preparada pelos cozinheiros e dela eles comeram, mas todos passaram mal depois.
Então Thorhall disse “Não foi que o Barba-vermelha se provou melhor do que o seu Cristo? Esse foi o presente pela poesia que eu compus para Thor, meu patrono; raramente ele me decepcionou” Então, quando os homens souberam disso, eles jogaram a baleia de volta ao mar, e suplicaram a Deus por misericórdia. Então o tempo melhorou e eles puderam ir pescar, e depois disso não houve falta de comida naquela primavera. Eles voltaram da ilha a Straumsfjordr, e obtiveram comida dos dois lados; caçando no continente, e coletando ovos e pescando ao mar.
Capítulo 9
Quando chegou o verão eles discutiram sobre a viagem, e fizeram planos. Thorhall o Caçador desejava seguir a norte ao longo de Furdustrandir, a partir de Kjalarnes, e então buscar a Vinlândia; mas Karlsefni desejava ir a sul pela terra e então para o leste, porque a terra lhe parecia melhor quanto mais ao sul fosse, e ele achou melhor explorar em ambas as direções. Então Thorhall fez preparativos para sua viagem próximo às ilhas, e não mais que nove homens se voluntariaram para ir com ele; mas com Karlsefni foi o restante do grupo. E um dia, quando Thorhall carregava água para o seu navio, ele bebeu, e recitou estes versos:
“Quando eu vim, estes bravos homens me disseram,
Aqui a melhor bebida eu encontraria
Agora me vejam com um balde d’água –
O vinho e eu ainda somos estranhos.
Curvado sobre a nascente, eu provei
Todo o vinho de que a terra dispunha;
Carente de todo o encanto alardeado,
Pobres são as recompensas”
Depois eles zarparam, e Karlsefni os acompanhou até a ilha. Antes de içarem as velhas Thorhall recitou uns versos:
“Vamos voltar onde
estão nossos conterrâneos
Vamos fazer com que o hábil falcão do céu da areia
desbrave os amplos rumos das naus;
enquanto aqueles destemidos que incitam a tormenta de espadas,
que louvam a terra
E cozinham baleia,
Morem em Furdurstrandir”*
Eles então se foram, e velejaram para o norte ao longo de Furdurstrandir e Kjalarnes, e tentaram lá velejar contra um vento do oeste. Uma ventania lhes veio, no entanto, e os arrastou até a Irlanda, e lá eles foram muito maltratados e escravizados. Então Thorhall morreu.
Capítulo 10
Karlsefni seguiu pelo sul contornando a terra, com Snorri e Bjarni e o resto do grupo. Eles viajaram por um longo tempo, até chegarem em um rio, que descia pela terra e desaguava em um lago, e então no mar. Havia grandes ilhas na foz do rio, e eles não podiam adentrar o rio a não ser em maré alta.
Karlsefni e seu bando velejou à foz do rio, e chamou a terra de Hop. Lá eles acharam campos de trigo selvagem em todas as terras baixas; e videiras onde era montanhoso. Cada riacho ali era cheio de peixes. Eles fizeram buracos nas margens onde a maré alcançava; e quando a maré baixou eles acharam linguados nos buracos. Havia muitos animais de todo tipo na floresta. Eles ficaram lá por meio mês, se divertindo e sem se preocuparem com nada. Eles estavam com seu gado. E uma manhã cedo, quando eles olharam ao redor, eles viram nove canoas feitas de couro, e brandiam-se bastões nos barcos, e eles faziam barulhos tal qual manguais, e giravam na direção do movimento do sol.
Então Karlsefni disse “O que significa isso?” Snorri respondeu-lhe “Pode ser um sinal de paz; levemos um escudo branco e vamos encontrá-los”. E assim fizeram. Então aqueles nas canoas remaram em frente, e mostraram-se surpresos, e vieram à terra. Eles eram homens pequenos, de má aparência e o cabelo em suas cabeças era feio; eles tinham olhos grandes e bochechas largas. E eles ficaram ali por um tempo perplexos. Depois eles remaram para o sul, ao longo do cabo.
Capítulo 11
Eles haviam montado suas cabanas para cima do lado lago. E algumas das habitações estavam bastante no interior da terra, mas algumas eram próximas ao lago. Então eles passam lá o inverno. Não houve nenhuma neve, e todo o gado foi pastar por conta própria.
E quando começou a primavera eles viram em uma manhã cedo que várias canoas de couro estava remando ao sul do cabo; e eram tantas, como se houvesse pedaços de carvão espalhados pelo mar, e também brandiam seus cajados, tal como antes, em cada barco. Então eles levantaram escudos, e houve comércio entre eles; e esse povo queria especialmente comprar tecido vermelho, em troca eles tinham peles a oferecer, e couros bem cinzentos. Eles desejavam também comprar espadas e lanças, mas Karsefni e Snorri o proibiu.
Eles ofereceram couros escuros pelo tecido, e pegavam em troca um palmo de tecido, e o amarravam em torno de suas cabeças; e assim as coisas correram por um tempo. Mas quando o estoque de tecido começou a faltar, eles passaram a cortá-lo em pedaços de tal modo que não tivessem mais do que a largura de um dedo. Os Skraelingar deram em troca tanto quanto, ou até mais do que antes.
Capítulo 12
Então aconteceu que um touro, que pertencia ao bando de Karlsefni, correu para a floresta mugindo alto. Os Skraelingar, amedrontados, fugiram para as suas canoas, e remaram para o sul ao longo da costa. Não se viu então mais nenhum deles por três semanas. Quando esse tempo se passou, foi visto se aproximando pelo sul um grande número de barcos Skraelingar, vindo como na direção deles como uma corrente, os cajados dessa vez sendo brandidos na direção oposta ao movimento do sol, e todos os Skraelingar berravam alto. Eles então pegaram seus escudos vermelhos para encontrá-los. Eles se encontraram e lutaram, e houve uma grande chuva de projéteis. Os Skraelingar tinham também fundas, ou catapultas.
Então Karlsefni e Snorri veem que os Skraelingar trazem varas, com uma grande bola em cada uma, do tamanho do estômago de uma ovelha, de cor escura; e estas voaram em direção ao bando de Karlsefni em terra, e quando atingiram o chão fizeram um barulho horrível. Isso gerou grande terror em Karlsefni e seu grupo, tal que seu único impulso foi bater em retirada ao longo do rio, pois parecia que bandos dos Skraelingar vinham para eles de todas as direções. E eles não pararam até chegar a certas colinas. Ali eles ofereceram dura resistência.
Freydis saiu e viu que eles recuavam. Ela gritou “Por que vocês fogem desses desgraçados, homens tão valentes que são , quando, me parece, que vocês poderiam matá-los como gado? Se eu tivesse uma arma eu poderia lutar melhor que qualquer um de vocês” Eles não deram atenção ao que ela disse. Freydis tentou acompanhá-los, mas logo ela ficou para trás, porque ela estava grávida; ela foi atrás deles na floresta, e os Skraelingar a perseguiram. Ela encontrou um homem morto; Thorbrand, filho de Snorri, com uma pedra em sua cabeça; sua espada estava ao seu lado, então ela pegou-a e ficou preparada para defender-se ali.
Então vieram os Skraelingar em sua direção. Ela tirou sua camisa e bateu a espada em seu peito. Eles se assustaram com isso, e correram para os seus barcos, e fugiram. Karlsefni e o resto vieram até ela e louvaram seu fervor. Dois dos homens de Karlsefni morreram, e quatro dos Skraelingar, embora estivessem em maior número. Depois disso, eles foram para suas cabanas e discutiram sobre os homens que os haviam atacado naquela terra; pareceu-lhes que um bando foi o que veio nos barcos, e o outro apenas uma ilusão. Os Skraelingar também acharam um homem morto, e o seu machado jazia a seu lado. Um deles golpeou uma árvore com ele, e um após o outro o fez, e lhes pareceu que fosse um tesouro, e que cortava bem; então um deles pegou-o e golpeou uma pedra, e o machado quebrou. Aquilo lhes pareceu que era inútil, já que não suportou a pedra, e o jogaram fora.
Capítulo 13
Pareceu claro a eles que, embora a terra fosse boa, haveria sempre guerra e terror à espreita por aqueles que já habitavam ali. Então eles se preparam para sair e voltar à sua própria terra. Eles velejaram para o norte, e encontraram cinco Skraelingar vestindo casacos de pele, dormindo próximo ao mar, e eles tinham consigo potes, e neles havia medulas de animais misturadas com sangue; e eles acharam que esses deviam ser fora-da-lei. Eles os mataram. Depois eles chegaram em um cabo e viram vários animais; e este cabo ficou parecendo um monte de esterco, porque os animais dormiam lá de noite. Então eles chegaram a Straumsfjordr, onde havia abundância de tudo. Alguns dizem que Bjarni e Freydis permaneceram lá, e cem homens com eles, e não saíram de lá. Mas Karlsefni e Snorri viajaram para o sul, e quarenta homens com eles, e depois de ficar não mais de dois meses em Hop, retornaram no mesmo verão.
Karlsefni saiu um com um único barco para procurar por Thorhall, mas o resto do grupo permaneceu atrás. Ele e seus homens foram ao norte até Kjalarnes, e foram então para oeste, e a terra ficou a bombordo, e não havia nada lá além de floresta densa. E quando eles haviam navegado por um longo tempo, surgiu um rio que descia pela terra, fluindo do leste ao oeste. Eles navegaram pelo rio e seguiram pela margem sul.
Uma manhã o grupo de Karlsefni viu um ponto brilhante na clareira à frente deles, e eles gritaram na sua direção. Ele se mexeu, e era um ser da raça dos homens que possuíam um pé só, e ele veio rápido até a margem em frente de onde eles estavam. Thorvald, filho de Erik, o Vermelho, sentava junto ao leme, e o unípede lhe atirou um flecha na barriga. Ele arrancou a flecha. Então disse Thorvald, “Há banha no meu ventre; nós encontramos uma boa terra, e no entanto não conseguimos tirar muito proveito dela”.Thorvald morreu logo depois deste ferimento. Então o unípede saltitou para o norte. Eles o perseguiram, e o viram algumas vezes, mas ele lhes escapou. Na última vez que o viram, ele desapareceu em um certo riacho. Então eles retornaram, e um dos homens recitou estes versos:
“Valentes, nossos homens, acima e abaixo,
perseguiram um unípede;
Ouve, Karlsefni, quando contam
quão velozmente o homem fugiu!”
Então eles viajaram de volta para o norte, e acreditaram ter visto a terra dos unípedes. Eles desejavam, no entanto, não mais colocar o grupo em risco. Eles acreditaram que as montanhas faziam parte de uma só cadeia; isto é, aquelas de Hop e aqueles que agora descobriram; e que eles estavam á mesma distância dos dois lados de Straumsfjordr. Eles voltaram, e passaram em Straumfjordr o terceiro inverno. Então os homens se dividiram em facções; e aqueles que era solteiros quiseram possuir as esposas daqueles casados.
Snorri, filho de Karlsefni, nasceu no primeiro outono, e ele tinha três invernos de idade quando eles começaram a viagem de volta para casa.
E, quando eles partiram da Vinlândia, eles pegaram um vento do sul, e chegaram em Markland, e encontraram cinco Skraelingar; um era um homem barbudo, duas eram mulheres, duas crianças. O grupo de Karlsefni capturou as crianças, mas os outros escaparam e mergulharam na terra. E eles levaram as crianças consigo, e lhes ensinaram a sua fala, e eles foram batizados. As crianças chamavam sua mãe de Vӕtilldi, e seu pai Uvӕgi. Eles disseram que reis governavam a terra dos Skraelingar, um dos quais se chamava Avalldamon, e o outro Valldidida. Eles também disseram que não havia casas, e as pessoas viviam em cavernas ou buracos. Eles disseram que havia uma terra do lado oposto ao de sua própria terra, e as pessoas lá vestiam roupas brancas, soltavam gritos altos, carregavam longas varas, em que um pano era amarrado. Acreditava-se que esta era a Hvitramannland, a terra dos homens brancos, ou a Irlanda, a Grande. Então eles chegaram na Groenlândia, e passaram o inverno com Erik o Vermelho.
Capítulo 14
Bjarni, filho de Grimolf, e seus homens, foram arrastados ao Mar da Groenlândia, e chegaram a uma parte em que o mar estava infestado com vermes-de-barco. Eles não perceberam até que o barco sob eles estivesse todo comido pelos vermes; Então eles discutiram o que fazer. Eles tinham um bote revestido com cera de banha de foca. Diz-se que os vermes não danificam a madeira revestida com cera de foca. A opinião da maioria dos homens foi embarcar no bote tantos homens quanto fosse possível. Então, quando isso foi tentado, o bote não comportou mais do que metade dos homens. Então Bjarni sugeriu que fosse decidido pela sorte, não pelo prestígio dos homens, quem deveria subir no bote; e ainda que todos os homens quisessem subir no bote, ele não aguentaria todos; portanto, eles aceitaram o plano do sorteio para quem deveria abandonar o navio e subir no bote. E o sorteio foi tal que Bjarni, e quase metade dos homens, foram sorteados para embarcar no bote. Então deixaram o navio e foram para o bote aqueles escolhidos pela sorte.
E quando os homens estavam no bote, um jovem, um islandês, que fora um acompanhante de viagem de Bjarni, disse “Pretendes tu, Bjarni, abandonar-me aqui?” “É preciso que seja assim” Bjarni respondeu. Ele disse “Não era tal a promessa que tu fizeste a meu pai, quando eu deixei a Islândia contigo, que tu assim partirias comigo, quando disseste, que nós compartilharíamos do mesmo destino” Bjarni respondeu “Eu não vejo, no entanto, nenhum outro plano; o que tu sugeres?” Ele respondeu “Eu proponho este plano, que nós dois troquemos de lugar, e tu venhas aqui e eu irei aí” Bjarni respondeu “Que assim seja; e eu vejo que tu anseias pela vida e lhe parece penoso enfrentar a morte” Então eles trocaram de lugar. O homem foi ao bote e Bjarni de volta ao navio; e diz-se que Bjarni pereceu lá, no mar de vermes, e aqueles que estavam com ele no navio; mas o bote e aqueles que estavam nele seguiram viagem até chegarem a terra, e contaram esta história depois.
Capítulo 15
No verão seguinte Karlsefni foi até a Islândia, e Gudrid com ele, e foi à sua casa em Reynines. Sua mãe achou que ele escolheu mal a esposa, e Gudrid não ficou na casa no primeiro inverno. Mas quando ela descobriu que Gudrid era uma dama sem igual, ela foi para casa, e seu convívio foi feliz. A filha de Snorri filho de Karlsefni, foi Hallfrid, mãe do bispo Thorlak, filho de Runolf. Hallfrid e Runolf tiveram um filho, cujo nome era Thorbjorn; sua filha era Thorun, mãe do bispo Bjarn. Thorgeir foi o nome do filho de Snorri, filho de Karlsefni; ele foi pai de Yngvild, a mãe do primeiro bispo Brand. E aqui termina esta história.
Sobre esta tradução:
A Islândia é certamente um dos países com passado mais interessantes e peculiares. Além de ter sido algo como uma democracia mais de meio milênio antes da revolução francesa, uma das mais notáveis destas particularidades é a rica produção literária durante a idade média, em particular nos séculos XIII e XIV. Estes textos são hoje conhecidos como as sagas medievais islandesas ("saga" é uma das poucas palavras que a língua portuguesa herdou do islandês). Bastante distintas da literatura continental da época, estas obras misturam elementos históricos com fantásticos, descrevendo as curiosas relações pessoais e políticas entre os habitantes da ilha. Dentre as dezenas de sagas existentes, uma das mais celebradas é a Saga de Njall, uma interessante narrativa em torno dos feitos do guerreiro Gunnar Hámundarson e Njall, um advogado.
Como brasileiro, no entanto, as sagas que mais chamam a atenção são A Saga dos Groenlandeses e a Saga de Erik, o Vermelho. Estas histórias contam a vinda de navegantes vikings para a América por volta do ano 1000 d.C. , 500 anos antes de Cristóvão Colombo. São expedições precárias, cheias de reveses e relações conflituosas com os nativos norte-americanos. Estes empreendimentos não vingaram, os vikings permaneceram assentados na América por poucos anos antes de retornarem, mas este tempo foi suficiente para inspirar a escrita de ricas narrativas, além de deixar vestígios arqueológicos que hoje confirmam a veracidade de elementos destas sagas.
Aos pesquisar sobre estas sagas, logo descobri que nem todas estão traduzidas para o inglês e pouquíssimas estão traduzidas para o português. Na nossa língua, todas elas são obra de Théo de Borba Moosburger, doutor em letras pela UFSC, pelo qual tenho admiração. Ele é responsável por traduzir a Saga dos Volsungos (uma importante e clara inspiração da obra de J.R.R. Tolkien ), a Saga de Njall, a Saga dos Groenlandeses, a Saga de Hrafnkell Freysgoði e a Saga de Erik, o Vermelho. Parecem a mim traduções bastante competentes, no entanto, à exceção da Saga de Njall, não estão livremente acessíveis ao público brasileiro na internet. Eu acredito que um texto de tamanha importância e tão interessante merece estar prontamente acessível a quem queira lê-lo, portanto, algum tempo atrás tomei para mim a tarefa de traduzir uma das sagas sobre a América e disponibilizá-la.
Naturalmente, não sou falante da língua islandesa moderna nem do nórdico antigo (que na verdade são quase o mesmo idioma), mas me sinto bastante confortável com a língua inglesa e decidi traduzir a Saga de Erik, o Vermelho, do inglês para o português. Foi um processo bastante interessante e testou os meus conhecimentos da língua, tanto inglesa quanto portuguesa, de uma forma bastante diferente daquela a que estou habituado quando sou apenas um leitor, esta experiência fez aumentar bastante o meu apreço pelos tradutores profissionais.
Esta tradução foi baseada principalmente na tradução de 1880 para o inglês por J. Sephton e utilizei como auxiliares a tradução de Reeves de c.1880 para o inglês e a já citada tradução de 2007 para o português de Théo de Borba Moosburger.