June 25, 2026, 11:27 p.m.
For Japanese Only
Intercultural Communication with AmericansThe Japan Times
Não vou negar que a principal motivação por trás da compra desse livro teve um quê de voyeurismo. Além da intrusão de definitivamente não fazer parte do público-alvo, há a dupla estranheza pelo livro ser sobre um assunto sobre o qual eu nunca havia lido: comunicação. Para algo tão prevalente na vida de todo mundo, pensando agora parece de fato uma boa ideia se debruçar longamente sobre o tópico, mas confesso que nunca o havia feito. Para a minha sorte (e mais ainda para a dos japoneses), o autor aqui se dispõe a tentar sanar exatamente esta lacuna, destacando as barreiras culturais do modo de comunicação entre japoneses e americanos e como superá-las.
Tal qual a culinária ou a política, comunicação é um tema sobre o qual todos nós temos no mínimo alguma vaga intuição a respeito. Talvez exatamente por isso eu tenha ficado espantado com a riqueza de sutilezas e detalhes sobre os quais eu nunca havia pensado, por exemplo, quando o autor lista 20 formas distintas não-verbais com que os americanos podem comunicar um simples "Sim".
Na primeira metade, o autor descreve as principais características das duas, listando exaustivamente em pequenos pontos - são mais de 100 cada. Eis aqui uma pequena amostra:
Comunicação estilo-A (americano)
- Volume alto de fala
- Pausas curtas entre as falas, em relação aos japoneses
- Forte individualismo, falar mais "Eu" do que "Nós"
- Ênfase em igualdade na comunicação
- Discussões e debates são valorizados
- Ênfase mais no que é dito do que como é dito
- Interrompem interlocutor com alguma frequência
- Expressam emoções, concordância ou discordância com liberdade
Comunicação estilo-J (japonês)
- Comum ter um porta-voz para o grupo
- Alto grau de autocontrole emocional
- Comum iniciar conversas com muitos elogios ao interlocutor
- Prefere negar uma ideia indiretamente
- Prefere interações com roteiro, mais do que espontâneas
- Alta ênfase em amicabilidade e agradabilidade nas interações, mais do que conteúdo em si
- Não têm expectativa que batam na porta antes de entrar
- Mais confortável com proximidade física com interlocutor, precisa de menos "espaço pessoal"
Com isso, tentando criar uma síntese que se encaixa com as sensibilidades japonesas mas ainda cria pontes e é agradável aos americanos, o autor propõe o estilo-Z, que busca promover aos japoneses um estilo de comunicação no meio do caminho mas ainda possível, por exemplo, ser mais assertivo e direto, se desculpar com menos frequência, propor interações espontâneas sem roteiro, entre outros pontos. Imagino que um japonês que esteja lendo um livro como este já esteja excepcionalmente disposto a criar esta ponte de comunicação. Fico imaginando como seria a comunicação estilo-B (brasileira). Embora tenhamos mais semelhanças com o estilo americano, creio que parecemos mais com os japoneses a respeito da forma evasiva e indireta de negar algo a alguém, veja bem...
Na segunda metade, há uma descrição de ainda mais diferenças culturais, tanto não-verbais quanto sobre as nuances do idioma. O formato de guia prático inclui quizzes de autoavaliação para medir quão familiarizado com as nuances da comunicação americana o leitor está, assim como um divertido teste de múltipla escolha com expressões mais ou menos equivalentes em inglês mas que têm efeito bastante variado - Por exemplo: Um garçom deve perguntar ao cliente "What would you like?" ou "What is your problem? ? Um desafio dos japoneses é se habituar a hipérboles, muito antinaturais ao seu idioma. Como estudante de língua japonesa por vezes eu me perco profundamente nessas nuances de formalidade, creio ser natural para qualquer estudante. Me lembro um tempo atrás de conversar com um japonês que estava aprendendo espanhol, ele me perguntou extremamente confuso sobre por que a tímida e reservada interlocutora brasileira com quem ele falava começou a chorar quando ele a chamou de "antipática". Nem imagino.
Outro ponto curioso: embora existam assuntos tabus em ambas as culturas, eles não são os mesmos para americanos e japoneses. Japoneses se sentem menos à vontade do que americanos discutindo com desconhecidos sobre assuntos abstratos e grandiosos tais quais opiniões políticas ou grandes temas econômicos. Por outro lado, se sentem mais dispostos a falarem sobre certos assuntos pessoais que servem de marcadores sociais que seriam extremamente inapropriadas do ponto de vista americano. Segundo o autor, não seria tão estranho perguntar a um recém-conhecido "Por que você se separou da sua esposa?" ou "Qual ao seu salário?"
Enfim, bem divertido e informativo. Realmente abriu minha mente para o nível de meticulosidade com que se pode abordar este tema. Adoraria perguntar a um japonês de hoje o quanto ele se identifica com os pontos apresentados. Talvez da próxima vez que eu for pra lá eu deva mesmo seguir a sugestão das páginas finais e contratar um consultor de comunicação intercultural.