This post hasn't been translated to English yet. Showing the original Portuguese version.

Trip to Japan

Cover

0. Sobre a Viagem

Em 2024 fui ao Japão.

Foi a realização de uma vontade antiga, venho estudando a língua japonesa já há alguns anos, me interesso muito pelo história de lá. Apesar disso ainda era uma terra distante que eu só conhecia por meio das letras e dos pixels. Como paulistano, estou habituado a conviver com os muitos ecos da cultura japonesa na forma de nomes de rua da cidade, pessoas descendentes, bandejinhas de gyoza de palmito ou placas de "Irashaimasê" na entrada de um restaurante mineiro (como no "À la Carte Mineiro", muito bom por sinal). Parecia um bom momento de ir conhecer a origem disso tudo.

Com a minha então namorada fizemos um roteiro mais ou menos tradicional, típico de turistas de primeira viagem - Tóquio, Quioto e cercanias, Hiroshima. O ponto mais exótico foi talvez a estadia em um lindíssimo ryokan em Izu chamado Tatsuta - este post é ilustrado com minha foto jogando em um goban de lá - onde por um grande acaso praticamente seguimos os passos do protagonista de A Dançarina de Izu, livro de Yasunari Kawabata.

Mesmo depois de tudo isso, a parte que mais me marcou da viagem não foi nenhum grande templo milenar ou peça de arte suntuosa, embora também estes tenham sido muito memoráveis. Minha parte preferida foi fruto de uma pequena jornada pessoal anterior à viagem, algo que tenho certeza ninguém nos últimos 40 anos se dispôs a fazer e foi em partes iguais única e banal. Vou narrá-la aqui:


1. A Faísca

Em algum momento de talvez 2014, nos meus frequentes passeios pela USP no intervalo entre atividades, resolvi dedicar uma tarde a visitar a biblioteca Florestan Fernandes. Não tinha nenhuma pretensão específica, foi algo como perambular pelo shopping vendo lojas de joias caras que eu nunca vou comprar. Lembro de terem me marcado especialmente um livro de avicultura em romeno cheio de ilustrações bonitas e uma coleção enorme com uns 100 volumes grossos de textos budistas. Mas além desses, um terceiro item me chamou a atenção, um livro de lombada azul e meio surrado chamado: "Neighborhood Tokyo". Fui com a cara dele. Não peguei emprestado, importei um cópia baratinha usada e rejeitada por uma biblioteca americana qualquer.

Publicado pela universidade de Stanford, a premissa é bem particular: o autor antropólogo interessado na vida urbana de Tóquio mora por dois anos em um bairro comum da cidade e documenta sua vivência e suas observações científicas sobre aquela comunidade, como quem examina um grande aquário com caneta e prancheta, snorkel e pé de pato. Qual bairro? A introdução do livro já mostra o critério de seleção - ele queria algo como o "tipo ideal" weberiano, um bairro que melhor representasse a vida dos habitantes de Tóquio: não muito tradicional nem muito recente, não muito grande nem muito pequeno, não muito central nem muito afastado, não muito turístico nem muito deserto, não muito opulento nem muito pobre, a tigela de mingau perfeito da Cachinhos Dourados em formato de concreto e asfalto.

Ele então decide se instalar no bairro de Miyamoto-cho, e este se torna tanto o seu endereço residencial quanto o objeto de todo o seu estudo.

No relato, o autor busca unir um traçado histórico da criação do bairro, a origem (real ou inventada) das tradições locais bem como descrever as relações dos habitantes do bairro com os bairros vizinhos, a política, os festivais, a religião. Inclui também várias anedotas que ouviu ou vivenciou, como a revolta do bairro quando o Sr. Oda colocou uma máquina de vender revistas pornográficas em frente à sua casa, que ficava no caminho das crianças para a escola; nas viagens aos ryokans que o político local Tsurumi-sensei organizava para preservar a boa vontade das donas de casa da região ou nos festivais locais, ou a presença dos "no-pan kissa", cafeterias decoradas com chão de espelho em que as garçonetes vestiam vestidos curtos sem roupa de baixo, junto com outros estabelecimentos de baixa reputação que ficavam em torno da estação e causava receio nos moradores.

Fui me afeiçoando por aqueles muitos personagens e ao fim da última página, já me sentia íntimo e nostálgico daquele pedacinho de terra de 20 anos antes de eu nascer aonde eu jamais havia ido. Será que os alemães têm uma palavra para esse apego tão profundo e tão distante ao mesmo tempo?

Decidi: eu tinha que incluir uma visita na minha viagem a Tóquio.


2. A Busca

Só tinha um probleminha: Miyamoto-cho não existe.

Ou, quer dizer, não com esse nome.

Por privacidade e respeito aos seus antigos vizinhos, o autor teve o bom-senso de alterar todos os nomes de pessoas e lugares citados. Nenhum nome mencionado era buscável no Google Maps ou onde quer que fosse. Foi um baque para o meu plano de viagem, mas não foi fatal. Quando o livro foi escrito, ele não havia imaginado o super poder que é ter um conexão de internet. E se eu descobrisse onde é esse lugar mesmo assim?

Embora os nomes todos fossem falsos, as descrições da geografia e do mapa da cidade não eram. Vestindo meu chapéu de caça e meu cachimbo imaginários, folheei o livro inteiro em busca de pequenos trechos que fizessem referência a distâncias, esquinas, tipos de estabelecimentos, estações de metrô ou qualquer outra migalha de pistas que o texto pudesse fornecer. Algumas páginas contam também com rascunhos propositalmente mal desenhados do bairro pelo autor, assim como algumas fotos em preto e branco.

[imagem pistas]

Depois de separar umas 15 linhas no meio das 400 páginas e munido das poucas imagens, dediquei algumas horas das noites navegando em sites institucionais da prefeitura de Tóquio e no Google Maps, comparando com os rascunhos e as descrições. Me senti de novo como a criança que procura um ovo de chocolate escondido no jardim na manhã de Páscoa, mas o jardim era do tamanho de Tóquio e o ovo era um print screen de oito quarteirões do outro lado do mundo.

Com uma busca parcial e cheio de pistas nas mãos, pedi ajuda de estranhos da internet. Finalmente, achei! Os relatos do livro são de 1980, meu erro para não ter encontrado sozinho foi ter subestimado o efeito do tempo, acho que não fui o primeiro nem serei o último culpado disso. Se por um lado as ruas não mudaram muito, muitas das instalações e estabelecimentos não existem mais.

[imagem hoje e antes]


3. A Jornada

[A escrever]